Resumo
Introdução: A Síndrome de Brugada (SBr) é uma canalopatia arritmogênica hereditária caracterizada por um risco elevado de morte súbita cardíaca. Na prática odontológica, a segurança cardiovascular de medicamentos usados no manejo da dor orofacial tem ganhado forte destaque em pacientes com essa síndrome. O tratamento frequentemente envolve a prescrição de anestésicos locais, analgésicos e neuromoduladores. No entanto, diversos desses fármacos possuem potencial documentado de bloqueio dos canais de sódio cardíacos, podendo induzir o padrão eletrocardiográfico patológico e precipitar arritmias ventriculares fatais. O objetivo deste estudo é avaliar as evidências científicas contemporâneas acerca da segurança cardiovascular e dos riscos arritmogênicos associados aos fármacos rotineiramente empregados no manejo da dor orofacial em pacientes com Síndrome de Brugada. Material e Método: O estudo seguiu as diretrizes PRISMA, utilizando a estratégia PICO para definir pacientes com Síndrome de Brugada, intervenção farmacológica para dor orofacial, ausência de comparador direto e desfechos de segurança cardiovascular e arritmogênica. Realizou-se busca sistemática nas bases PubMed, Scopus e SciELO com os descritores: “Brugada Syndrome”, “orofacial pain”, “dental pharmacology” e “local anesthetics”. Os critérios de inclusão contemplaram artigos originais e revisões entre janeiro de 2021 e julho de 2026, em português e inglês. Excluíram-se estudos sem relevância clínica odontológica direta, duplicados ou sem correlação farmacológica. A triagem e seleção foram conduzidas de forma cega por dois revisores independentes. Dispensou-se Comitê de Ética por se tratar de dados secundários públicos. Resultados: A busca sistemática inicial identificou um total de 98 registros nas bases de dados eletrônicas. Após a remoção de duplicatas, a triagem inicial por títulos e resumos resultou na seleção de 28 artigos para a leitura integral do texto completo. Destes, após a aplicação rigorosa dos critérios de elegibilidade, 11 estudos compuseram a síntese qualitativa final. Discussão : A análise revela que o uso de anestésicos locais do tipo amida, especialmente a bupivacaína, exige extrema cautela, enquanto a lidocaína apresenta maior margem de segurança desde que respeitadas as doses máximas e com aspiração prévia rigorosa. Para o manejo da dor neuropática orofacial, antidepressivos tricíclicos (como a amitriptilina) e certos anticonvulsivantes (como a carbamazepina) demonstram elevado risco arritmogênico, sendo contraindicados em diretrizes cardiológicas por atuarem como potentes bloqueadores dos canais de sódio. Em contrapartida, o uso racional de paracetamol e anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) de meia-vida curta mostrou-se predominantemente seguro. O estudo reforça a necessidade premente de estratificação de risco pré-operatória, consulta a plataformas de segurança (como o portal BrugadaDrugs) e comunicação interdisciplinar com a cardiologia. Conclusão: O manejo farmacológico da dor orofacial em portadores da Síndrome de Brugada exige protocolos altamente restritivos e conhecimento toxicológico aprofundado. A individualização da terapia, a preferência por fármacos de menor toxicidade miocárdica e a restrição absoluta a neuromoduladores de alto risco são medidas críticas para garantir a segurança do paciente na cadeira odontológica.

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