Resumo
Introdução (com o objetivo): As manifestações do racismo institucional, a menor escuta qualificada, dificuldades de acesso da população negra a serviços de saúde de alta complexidade, além do não reconhecimento das intoxicações medicamentosas como eventos de agravos, tornam fundamental a discussão da letalidade das intoxicações medicamentosas considerando grupos de raça/cor. O objetivo desse estudo é estimar a letalidade das intoxicações medicamentosas no Brasil (2018-2022) segundo circunstâncias uso habitual, acidental, uso terapêutico, prescrição médica, erro de administração e automedicação e investigar variáveis no quesito raça/cor. Material e Método: Estudo epidemiológico descritivo, individuado, com recorte transversal, utilizando casos notificados de intoxicações medicamentosas no Brasil disponíveis no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (2018-2022). Será estimada letalidade dividindo-se os óbitos pelos casos de intoxicação segundo raça. A incidência será calculada pela divisão das notificações pelo total de habitantes no período. Os dados estimados serão estratificados segundo raça (branca, parda e preta), faixa etária (< 1 ano a 80 anos ou mais) e circunstância (uso habitual, acidental, uso terapêutico, prescrição médica, erro de administração, automedicação), considerando que o agente tóxico envolvido seja medicamento. Resultados: Durante o período analisado, foram registradas 97.666 notificações, com perda de informação sobre raça/cor para 14.101 (14,4%). A incidência por 100 mil habitantes foi de 9,3 para brancos, 6,8 para pardos e 3,9 para pretos, as taxas de letalidade foram semelhantes entre os grupos: 0,407%, 0,414% e 0,401% respectivamente. Além da maior letalidade entre pessoas negras, observou-se que a média de idade dos casos de intoxicações nesse grupo (22,4 anos) foi inferior à da população branca (24,1 anos). No recorte temporal, observou-se aumento proporcional de 5,2% nas notificações entre brancos, 10,6% entre pardos e 23% entre pretos. Em relação às circunstâncias, a população preta apresentou maior proporção de casos por automedicação (29,7%) e uso habitual (21,7%) em comparação com a população branca (26% e 18,2%, respectivamente). Conclusão: Embora a maior incidência tenha sido observada entre brancos, e a menor entre pretos reflete a subnotificação associada a desigualdades no acesso aos serviços de saúde, populações socialmente vulneráveis tendem a apresentar maior subnotificação, seja por menor procura por serviços, por barreiras estruturais no acesso ao diagnóstico e registro dos casos. As taxas de letalidade foram semelhantes entre os grupos. Além disso, a menor média de idade entre pessoas pretas, quando comparada aos brancos, sugere que as intoxicações nesse grupo atingem indivíduos mais jovens, associados a maior exposição a contextos de vulnerabilidade social. Observa-se também um aumento proporcional mais expressivo nas notificações entre pessoas pretas, seguido por pardos e brancos. Esse crescimento pode refletir mudanças no acesso aos serviços, maior sensibilização para a notificação ou transformações no padrão de uso de medicamentos na população.

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