Abstract
Introdução (com objetivo): A dor crônica impacta substancialmente a qualidade de vida e constitui um relevante problema de saúde pública. Apesar das opções terapêuticas, o manejo desta condição ainda permanece desafiador, uma vez que os medicamentos atualmente disponíveis apresentam eficácia limitada ou estão associados ao desenvolvimento de tolerância, dependência ou a efeitos adversos relevantes (1). Na busca por estratégias terapêuticas alternativas ou adjuvantes, a cannabis medicinal tem emergido como potencial opção terapêutica em razão da atuação sobre o sistema endocanabinoide, um sistema fisiológico envolvido na modulação da dor e da inflamação (2). Apesar do crescente número de pesquisas sobre o uso da cannabis no tratamento da dor crônica, ainda persistem lacunas de conhecimento quanto a sua eficácia, segurança e aplicação clínica (3). Destarte, o objetivo do presente trabalho foi sintetizar as evidências científicas disponíveis sobre a eficácia e a segurança da cannabis e seus derivados no manejo da dor crônica. Material e Método: Foi conduzida uma revisão sistemática de revisões sistemáticas seguindo as diretrizes do Instituto Joanna Briggs (4) e da Colaboração Cochrane (5) (registro PROSPERO - CRD420250653672). As buscas eletrônicas foram realizadas no PubMed, Web of Science e Scopus e incluíram revisões sistemáticas que avaliaram a eficácia, a segurança ou o impacto na qualidade de vida do tratamento à base de cannabis em indivíduos com dor crônica, em comparação a placebo, tratamento ativo ou nenhuma intervenção. A qualidade metodológica das revisões foi avaliada por meio da ferramenta AMSTAR-2 e a sobreposição dos estudos primários foi calculada pela fórmula da Área Coberta Corrigida (CCA). Resultados: Foram identificados inicialmente 606 registros, dos quais 36 atenderam aos critérios de elegibilidade e foram incluídos no estudo. Observou-se que formulações ricas em THC promoveram maior magnitude de redução da dor e resultados mais consistentes em comparação ao CBD isolado, demonstrando que o efeito analgésico é influenciado pela composição do medicamento. De forma geral, o efeito analgésico foi estatisticamente significativo, com destaque para formulações inaladas, porém, de magnitude modesta quando comparados ao placebo e sem evidência clara de superioridade sobre terapias padrão. Observou-se ainda benefício clinicamente perceptível na qualidade de vida, especialmente na qualidade do sono. Os eventos adversos foram predominantemente leves a moderados, transitórios e bem tolerados, sendo os mais frequentes boca seca, tontura, sonolência e sedação. A qualidade metodológica da maioria das revisões sistemáticas incluídas foi criticamente baixa, e a sobreposição dos estudos primários foi considerada moderada (CCA=9%). Conclusões: Os achados sugerem potencial benefício da cannabis como terapia adjuvante no manejo da dor crônica em populações refratárias ao tratamento usual. No entanto, a elevada heterogeneidade, a baixa qualidade das revisões sistemáticas e o moderado grau de sobreposição dos estudos primários limitam a confiabilidade da evidência, sendo necessários ensaios clínicos metodologicamente rigorosos e padronizados para embasar recomendações mais consistentes.

This work is licensed under a Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Copyright (c) 2026 Karina Rocha Back, Hesron Gabriel Mendes Pereira, Helena Hiemisch Lobo Borba

