Abstract
Introdução (com objetivo): As doenças respiratórias crônicas constituem importante causa de morbidade no Brasil, com impacto significativo sobre a qualidade de vida, a capacidade funcional e o acesso a tratamentos(1,2). Asma, DPOC e outras DRC continuam frequentes, sobretudo em idosos e populações socialmente vulneráveis(3). Estudos que caracterizam o perfil clínico e o burden a partir da perspectiva do paciente ainda são escassos no contexto brasileiro, especialmente de forma comparativa entre diferentes condições. Desta forma, o objetivo desta trabalho foi descrever o perfil sociodemográfico e clínico, bem como o impacto na qualidade de vida de pacientes com doenças respiratórias crônicas no Brasil, avaliando o padrão de uso de serviços, o acesso a medicamentos, os gastos em saúde e as barreiras à adesão ao tratamento. Material e Método: Estudo transversal descritivo com dados primários coletados por survey online estruturado, aplicado a pacientes adultos com diagnóstico autorreferido de doença respiratória crônica. Foram coletadas informações sobre diagnóstico (resposta múltipla), faixa etária, sexo, estado de residência, local de tratamento, fonte de obtenção de medicamentos, gastos mensais e barreiras à adesão. A dispneia foi avaliada pela escala modified Medical Research Council (mMRC; 0–4). A qualidade de vida foi mensurada pelo EQ-5D-5L, com cálculo do índice de utilidade por método crosswalk (value set do Reino Unido como proxy, na ausência de tarifa nacional validada para a versão 5L), processado no software R (versão 4.5.2), utilizando o pacote eq5d, além da Escala Visual Analógica (VAS). A análise foi conduzida por estatística descritiva. O estudo foi aprovado por Comitê de Ética em Pesquisa sob n. 7.879.815. Resultados: Foram incluídos 365 respondentes, provenientes de 23 estados brasileiros. A maioria era do sexo feminino (81,9%) e tinha 50 anos ou mais (60,5%). As condições mais frequentes foram Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (40,3%), asma (33,2%), hipertensão pulmonar arterial (18,1%) e fibrose pulmonar idiopática (8,2%); 30,7% relataram duas ou mais doenças concomitantes. O índice de utilidade médio pelo EQ-5D-5L foi de 0,625 (DP 0,256), inferior ao observado na população geral (~0,85–0,90), indicando comprometimento moderado a grave do estado de saúde. O VAS médio foi de 62,6 (DP 18,4). As dimensões mais afetadas foram ansiedade/depressão (74,0% com algum grau de comprometimento), atividades habituais (71,2%) e dor/desconforto (69,3%). O escore médio de mMRC foi de 2,6, indicando limitação funcional moderada, com 47,9% dos participantes em grau ≥3, compatível com dispneia incapacitante. Quanto ao acesso, 55,3% obtinham medicamentos pelo SUS e 37,8% por compra direta, com gasto médio de R$272/mês; 24,4% relataram gastos superiores a R$300 mensais. As principais barreiras à adesão foram custo (43,0%), esquecimento (28,5%) e dificuldade de acesso ao médico (25,2%). Conclusões: Pacientes com doenças respiratórias crônicas no Brasil apresentam comprometimento relevante da qualidade de vida, com impacto predominante nas dimensões de saúde mental e capacidade funcional. Apesar da utilização do SUS como principal fonte de acesso, o custo permanece como a principal barreira à adesão ao tratamento. Os achados evidenciam lacunas na integralidade do cuidado e reforçam a necessidade de estratégias que ampliem o acesso, qualifiquem o acompanhamento clínico e reduzam o ônus financeiro para os pacientes.

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