Resumo
Introdução: O manejo farmacológico da dor orofacial e odontogênica baseia-se historicamente no uso de anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) e opioides. Contudo, as limitações de eficácia em dores refratárias e os riscos de efeitos adversos impulsionam a busca por novos alvos terapêuticos. Partindo desse pressuposto, a literatura mostra que o sistema serotoninérgico (5-HT) desponta como uma via crucial na modulação da nocicepção trigeminal, atuando tanto na sensibilização periférica quanto no processamento central da dor. Objetivamos investigar as evidências científicas sobre a modulação farmacológica dos receptores de serotonina (5-HT) como um eixo mecanístico emergente para a analgesia na Odontologia. Material e Método: O estudo foi conduzido e reportado em conformidade com as diretrizes metodológicas do PRISMA. Utilizou-se a estratégia PICO na fundamentação da pergunta norteadora na qual definiu a o problema de interesse, no caso, dor orofacial, a intervenção farmacológica sobre os receptores 5-HT, a ausência de restrição comparativa direta e a avaliação do alívio analgésico e modulação nociceptiva como desfechos principais. Realizou-se uma busca sistemática e abrangente nas bases de dados eletrônicas PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science e SciELO, empregando os descritores: “5-HT receptors”, “orofacial pain”, “dental analgesia” e “serotonin” combinados por operadores booleanos. Os critérios de inclusão limitaram-se a artigos originais e estudos experimentais/clínicos, abrangendo marcos farmacológicos fundamentais até as publicações recentes de 2026, nos idiomas inglês e português. Foram excluídas revisões narrativas genéricas e estudos sem correlação clínica odontológica direta. O processo de triagem inicial, a remoção de duplicatas, a leitura de títulos e resumos, bem como a seleção final dos artigos, foram conduzidos por dois revisores independentes para assegurar o rigor analítico. Resultados: A busca identificou 118 registros; após triagem, 32 textos completos foram avaliados e 12 estudos integraram a síntese qualitativa. Dispensou-se Comitê de Ética por se tratar de dados secundários. Discussão: Os resultados obtidos demonstram papéis opostos para diferentes subtipos de receptores serotoninérgicos na região orofacial. Alguns estudos mostraram que, em tecidos periféricos (como o músculo masseter e a polpa), a serotonina atua como mediadora algogênica, assim o antagonismo dos receptores 5-HT₃ e 5-HT₂A reduz significativamente a hiperalgesia inflamatória e a alodinia mecânica. Em contraponto no gânglio do nervo trigêmio, a ativação dos receptores 5-HT₁ (especificamente 5-HT₁B/₁D, mecanismo já explorado pelos triptanos na enxaqueca) inibe a exocitose de neuropeptídeos pró-inflamatórios, como o CGRP e a Substância P, atenuando a neuroinflamação e a sensibilização central. A literatura recente aponta que a translação dessas vias para o controle da dor odontogênica aguda e das disfunções temporomandibulares (DTMs) oferece uma modulação nociceptiva superior aos inibidores da COX em quadros neurogênicos. Conclusão: A modulação dos receptores 5-HT representa um eixo farmacológico robusto e biologicamente comprovado para o controle da dor orofacial. O desenvolvimento de ligantes direcionados a esses receptores (antagonistas periféricos e agonistas trigeminais) possui imenso potencial para inaugurar uma nova classe de analgésicos odontológicos mais precisos e eficazes.

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