Resumo
Introdução: A farmácia hospitalar no Brasil tem ampliado sua atuação no cuidado direto ao paciente, integrando equipes multidisciplinares com o objetivo de promover o uso racional, seguro e sustentável de medicamentos. Entretanto, por se tratar de um serviço relativamente recente em muitas instituições, ainda são limitadas as evidências capazes de demonstrar objetivamente sua consolidação assistencial no longo prazo. Este trabalho teve como objetivo avaliar a evolução histórica das intervenções farmacêuticas e sua relação com a consolidação assistencial do serviço de farmácia clínica entre 2022 e 2025 em um hospital-escola do Espírito Santo. Material e Método: Trata-se de um estudo retrospectivo, descritivo e longitudinal dos indicadores do serviço de farmácia clínica do Hospital Santa Casa de Misericórdia de Vitória, um hospital-escola localizado em Vitória-ES. Foi realizado entre agosto de 2022, período de implantação do serviço, e dezembro de 2025. Durante os 40 meses de acompanhamento, foram incluídas todas as intervenções farmacêuticas (IFs) registradas em prontuário eletrônico. A consolidação assistencial do serviço foi inferida a partir da evolução temporal da aceitabilidade das IFs, da consistência das intervenções realizadas e da progressão do impacto farmacoeconômico ao longo da série histórica. Resultados: Nos primeiros seis meses de implantação do serviço, observou-se elevado número de intervenções farmacêuticas, com média de 235,17 IFs/mês, valor superior à média observada em 2025, de 199,25 IFs/mês. Entretanto, neste período inicial, a taxa de negativas das intervenções foi mais elevada, correspondendo à média de 26,51%, enquanto que após esse período houve redução para média para 14,72%. Durante todo o período analisado foram realizadas 7.248 IFs, destacando-se aquelas relacionadas ao ajuste de dose (1.467; 20,24%), sugestão de adição de itens à prescrição (1.461; 20,16%) e suspensão de itens prescritos (1.154; 15,92%). Do total de IFs realizadas, 1.704 (23,51%) apresentaram impacto farmacoeconômico mensurável, totalizando R$ 384.916,75 em economia gerada, com crescimento médio superior a 30% ao ano. Discussão : Os achados demonstram que, apesar do elevado número de intervenções observado na fase inicial de implantação do serviço, a redução progressiva das negativas e a manutenção de intervenções clinicamente relevantes sugerem amadurecimento da atuação farmacêutica e o fortalecimento da confiança da equipe multiprofissional nas recomendações realizadas. O predomínio de intervenções relacionadas ao ajuste de dose, adição e suspensão de medicamentos evidencia atuação clínica direcionada à otimização da farmacoterapia, promoção da segurança do paciente e uso racional de medicamentos. Como limitação, destaca-se o delineamento retrospectivo e a ausência de avaliação direta de desfechos clínicos, como redução de eventos adversos, mortalidade ou tempo de internação. Conclusão: Os resultados evidenciam a relevância da farmácia clínica para a qualificação assistencial e sustentabilidade financeira no SUS, sugerindo que indicadores relacionados às intervenções farmacêuticas podem atuar como marcadores indiretos da consolidação assistencial destes serviços. Estudos futuros com avaliação de desfechos clínicos poderão ampliar a compreensão do impacto da farmácia clínica hospitalar no longo prazo.

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Copyright (c) 2026 Guilherme Pinho Prado, Bruna Martins Silva, Daniele Ayres Capistrano, Isabela Ferreira Marques, Marito Afonso Sousa Costa Silva

