Resumo
Introdução (com objetivo): O infarto agudo do miocárdio (IAM) representa uma das principais causas de morte no Brasil, com mais de 1 milhão de óbitos entre 2013 e 2023 e mais de 440 mil internações apenas entre 2020 e 2024. Apesar das diretrizes nacionais e internacionais recomendarem a reperfusão precoce como estratégia central para redução de mortalidade e complicações, o acesso à intervenção coronária percutânea primária (ICPP) permanece limitado no país, com apenas cerca de 15% dos hospitais dispondo de serviços de hemodinâmica. Essa restrição estrutural contribui para atrasos no tratamento, piores desfechos clínicos e ampliação das desigualdades regionais em saúde. Nesse contexto, estratégias farmacológicas de reperfusão que aliem eficácia clínica, segurança e viabilidade operacional tornam-se fundamentais para fortalecer as linhas de cuidado do IAM, reduzir mortalidade evitável e reduzir desigualdades assistenciais. Objetivos: Avaliar a eficácia, segurança, e custo‑efetividade da tenecteplase em relação à alteplase no IAM, e estimar o impacto econômico associado à sua adoção. Material e Método: Foi conduzida uma revisão da literatura, para identificação e síntese de evidências provenientes de ensaios clínicos randomizados, revisões sistemáticas com ou sem meta‑análises e estudos econômicos que avaliaram a eficácia, segurança e custo-efetividade da tenecteplase em comparação à alteplase no IAM. As evidências identificadas foram utilizadas no desenvolvimento de uma modelagem exploratória de custos para estimar o impacto econômico da substituição da alteplase por tenecteplase, incorporando custos operacionais do tratamento, incluindo o uso de recursos assistenciais e os custos de aquisição dos medicamentos. A considerou um horizonte temporal de 10 anos, assumindo substituição gradual ao longo de 5 anos, com adoção exclusiva de tenecteplase a partir do sexto ano. Resultados: Entre os estudos identificados, a tenecteplase e a alteplase apresentaram eficácia semelhante no tratamento do IAM. A mortalidade em 30 dias foi de aproximadamente 6%, sem diferença estatisticamente significativa entre os tratamentos (RR = 1,01; IC95%: 0,89–1,13; p = 0,82). Também não foram observadas diferenças na incidência de reinfarto, choque cardiogênico ou AVC. Em relação à segurança, a tenecteplase esteve associada a menor incidência de sangramento total (RR = 0,92; p = 0,0003) e de sangramento maior (RR = 0,79; p = 0,0002). Do ponto de vista operacional, a administração da tenecteplase em bolus único intravenoso esteve associada a menor complexidade assistencial, viabilidade de uso em ambientes pré‑hospitalares e hospitalares e potencial redução do tempo até a reperfusão, especialmente em cenários sem acesso imediato à ICPP. Estudos econômicos corroboraram essas vantagens, indicando perfil favorável de custo‑efetividade. Na análise de substituição da alteplase para a tenecteplase, observou‑se redução dos custos totais, com economia acumulada de R$ 55,5 milhões no período total de 10 anos, quando simulada uma coorte de 31.874 pacientes. Conclusões: De forma integrada, os achados indicam que a tenecteplase entrega valor clínico, operacional e econômico no manejo do infarto agudo do miocárdio. Com desempenho clínico equivalente, vantagens operacionais relevantes, incluindo viabilidade em ambientes pré‑hospitalares, e impacto econômico favorável ao longo do tempo, a estratégia com tenecteplase contribui para maior eficiência da linha de cuidado do IAM e melhor uso dos recursos do sistema de saúde.

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