Resumo
Introdução: A oxigenoterapia com cânula nasal de alto fluxo (CNAF) tem emergido como uma modalidade de suporte ventilatório alternativa em pediatria para o tratamento da insuficiência respiratória aguda e da bronquiolite. No entanto, sua superioridade em relação às terapias convencionais é controversa, e persistem dúvidas na literatura quanto aos seus reais benefícios clínicos. Objetivo: Avaliar as evidências científicas sobre o uso da CNAF em pacientes pediátricos, a fim de fornecer subsídios para a tomada de decisão sobre sua incorporação no Hospital Universitário Professor Edgard Santos (HUPES). Métodos: Revisão sistemática com metanálise, guiada pela estratégia PICO e segundo o PRISMA, para comparar a CNAF a outras ventilações não-invasivas em crianças com insuficiência respiratória, avaliando a evolução para ventilação invasiva (VI). As buscas foram realizadas nas bases PubMed, Embase, Cochrane Library e Biblioteca Virtual em Saúde. Analisaram-se os desfechos tempo de internação, permanência em unidade de terapia intensiva pediátrica (UTIP), tempo de uso do dispositivo, necessidade de intubação ou reintubação e mortalidade. O software R foi utilizado para produzir os forest plots, com modelos de efeitos aleatórios, obtendo o risco relativo (RRag) e diferenças de médias (DMag) agrupadas e os intervalos de confiança de 95% (IC95%). Análises estratificadas por comparador e tipo de estudo e de sensibilidade foram conduzidas, quando pertinente. Análise de subgrupo foi realizada para pacientes com bronquiolite. Para avaliar a qualidade da evidência e o viés de publicação, empregaram-se, respectivamente, o sistema GRADE e os gráficos de funil. A síntese dos dados incluiu até 12 estudos por desfecho, compreendendo mais de 12 mil pacientes em análises específicas. Resultados: Não foram observadas diferenças estatisticamente significativas entre os grupos de intervenção em nenhum dos desfechos clínicos analisados, inclusive na subanálise restrita aos pacientes com bronquiolite. Especificamente, para ocorrência de VI, o RRag foi de 0,84(IC95%:0,56–1,25) e, para tempo em UTIP uma DMag de -0,4(IC95%:-0,9–0,2). A baixa frequência de eventos foi um limitador observado, especialmente para os desfechos mortalidade. As análises de heterogeneidade entre os estudos foram consideráveis, com o I² variando de 47,9% a 92,5. Conforme o GRADE, a certeza da evidência para os desfechos foi classificada como baixa a muito baixa. Conclusões: A incorporação rotineira da CNAF no HUPES parece não se justificar no momento, dada a ausência de evidências de sua superioridade e a baixa certeza da evidência. Recomenda-se que seu uso seja restrito a situações pontuais e amparado por protocolos, um processo que reforça o papel da Avaliação de Tecnologias em Saúde (ATS) na gestão de recursos. Visto que não houve superioridade clínica, futuras investigações devem focar na análise de custo-efetividade da tecnologia, especialmente em relação a ventilação não-invasiva com máscara facial.

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