Resumo
Introdução: A síndrome de Down foi inicialmente descrita por John Langdon Down em 1866, sendo posteriormente associada à trissomia do cromossomo 21 graças aos avanços da citogenética promovidos por Lejeune, Gautier e Turpin. Essa aneuploidia constitui a alteração cromossômica mais comum nas gestações humanas, inserindo-se no grupo de anomalias congênitas que afetam aproximadamente 5% das gestações. Diante da crescente discussão científica sobre os possíveis efeitos teratogênicos da Cannabis, investigou-se sua relação com a ocorrência de anomalias cromossômicas, em especial a trissomia 21. Objetivo: Mapear as evidências científicas disponíveis na literatura acerca da relação entre o uso de Cannabis e a ocorrência de síndrome de Down. Métodos: Foi conduzida uma revisão de escopo orientada pelo checklist PRISMA-ScR e estruturada segundo o modelo PCC: população (pessoas com síndrome de Down), conceito (uso de Cannabis) e contexto (estudos observacionais). A busca foi realizada em dezembro de 2024, nas bases de dados PubMed, Embase e LILACS. Os critérios de elegibilidade incluíram estudos primários, publicados em qualquer idioma, que abordassem associação entre uso de Cannabis e ocorrência de trissomia 21 ou outras anomalias congênitas. Resultados: Foram identificados 107 registros, sendo incluídos seis estudos observacionais com delineamento ecológico. As pesquisas analisaram populações da Europa, Estados Unidos, Canadá e Austrália, avaliando a prevalência do uso de Cannabis em diferentes regiões e sua associação com taxas de anomalias congênitas, incluindo a trissomia do cromossomo 21. De modo geral, os estudos indicaram que áreas com maior prevalência de uso de Cannabis apresentaram taxas mais elevadas de anomalias congênitas, incluindo a Síndrome de Down, independentemente de fatores socioeconômicos, étnico-raciais ou idade materna. Conclusões: Os achados sugerem uma possível associação entre o uso populacional de Cannabis e o aumento na incidência de anomalias congênitas, como a trissomia do cromossomo 21. No entanto, devido ao delineamento ecológico dos estudos incluídos, não é possível inferir causalidade em nível individual. Destaca-se a necessidade de novos estudos com delineamentos mais robustos, como coortes e caso-controle, para esclarecer riscos individuais, mecanismos biológicos e possíveis implicações em políticas públicas de saúde e regulação do uso da Cannabis.

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